sábado, 24 de outubro de 2009

Par de Luzes

E a construção teve início. Kelvin planejou tudo. Imaginou grandes portas de madeira maciça e maçanetas de ouro. As janelas seriam recobertas por longas cortinas vermelhas aveludadas. Nas paredes, pinturas de famosos seriam penduradas. Um imenso tapete árabe cobriria o chão da mansão. Móveis importados e caros iriam formar a mobília da casa. Várias suítes para os hóspedes, uma sala de jogos e uma academia particular. Na sala, uma lareira toda de mármore e no alto dela uma pintura da mãe de Kelvin. Os sófas seriam dos mais confortáveis e na cor bege claro. Na cozinha, todos os aparelhos seriam os mais modernos e tecnológicos. Seu quarto teria uma cama de casal só para ele e no seu banheiro uma banheira de hidromassagem. Era o sonho dele essa casa. Após determinado tempo de trabalho, a casa tinha sido finalizada. Estava maravilhosa, esplêndida. Foi extremamente difícil para ele realizar tal façanha sem a sua querida amada ao seu lado. Aliás, fazia tempo que a mesma não lhe vinha ao pensamento. Tudo estava indo muito bem. Entretanto, um dia ele saiu da suntuosa moradia buscando algo que faltava. Tinha dinheiro para comprar qualquer coisa, pois economizara o salário do Centro. Buscou, buscou e buscou. Nada. Não achou simplesmente nada. Na volta para seu lar, deparou-se com um vendedor de flores. Eram rosas, mas não eram as normais e sim as importadas. Suas pétalas parecem ser de veludo. Quando se viu diante tal situação, correu para muito longe. Começara a chover e a cada pisada no chão, água era jorrada sobre seus sapatos de couro. Aconteceu algo que ele não provera: Elizabeth voltou-lhe à mente. Correu e correu. Em um instante, visualizou duas luzes amarelas vindo em sua direção, porém não parou. Foi em direção ao par de faróis. Enfim, tudo teve seu fim. Ali, estava ele: deitado naquele chão molhado olhando para o céu estrelado. Sabia que não iria sobreviver a tal acidente; suas pernas tinham sido comprometidas e sangue lhe vinha à boca. Quando as pessoas que antes estavam abrigadas da chuva começaram a surgir para prestar ajuda ele abriu um sorriso. Todos estranharam aquela situação. Então, uma jovem criança e chega e pergunta, "porque o senhor fez tal ato? Acompanhei toda a sua corrida e vi que não desviou do ônibus de propósito". "A sua vida, meu senhor, acabou. Suas pernas não possuem mais utilidade e sangue escorre pela sua boca. Para que tudo isso?", continuou a menina em meio a lágrimas. "Minha filha, tudo que eu pude fazer na minha vida eu fiz. Aproveitei ao máximo. Construi uma bela casa no topo naquela colina. Vi várias aventuras ao lado dos meus amigos. Amei a mulher mais bela que existe. Visitei lugares conhecidos e desconhecidos. Mas minha vida perdeu o sentido quando minha amada se foi. Foi para uma cidade muito longe daqui e da qual nem sei o nome. Não sei quanto a você, mas eu estou feliz, pois o meu sofrimento acabou." Finalizou a sua fala com um sorriso de canto a canto da boca e fechou os olhos para aquele mundo.

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