domingo, 8 de novembro de 2009

Destino

Tratava-se de um indivíduo independente. Conhecia todos os moradores do vilarejo e sabia os seus hábitos. Em um lugar bem afastado de todo o movimento construiu a sua casa. Não era muito luxuosa e espaçosa, mas lhe protegia do vento, chuva e sol. Possuía um carro preto, um Mercury 1951. Pouco ia na cidade, apenas quando necessitava de mantimentos. Não tinha nenhum romance, só no passado, os quais fazia questão de não se lembrar. Foi franco-atirador na Segunda Guerra Mundial e buscava ali um refúgio para os acontecimentos desta. Não se preocupava se não possuía amigos ou companheiros; os que importavam já haviam partido. Era um homem alto, ombros largos e cabeça raspada. No canto direito do rosto, uma grande cicatriz era encontrada. Sempre se vestia com um terno preto da mais alta costura, gravata vermelha e camisa branca. Sob a roupa elegante, utilizava um longo sobretudo negro. Esse era Robert Grewhouse, o misterioso morador da colina Winston.
Um dia resolveu descer para a cidade, queria beber um pouco. Não fazia parte do grande número de beberrões que ali se encontravam; tomava sua cerveja apenas com o intuito de se distrair. Logo que entrou na taberna Whitedrink, um simples estabelecimento onde os jovens, principalmente os homens, se reuniam para uma partida de sinuca ou simplesmente para jogar conversa fora. Fora construída com vigas de carvalho puro, sendo que durante o longo calor do verão era possível escutar os estalos delas. Nas paredes apenas alguns retratos de paisagens verdes dominados pela poeira. Um conjunto de sete mesas ficava espalhado pelo recinto, todas lotadas de homens sentados e em pé, que não paravam de bebericar seus canecos com o líquido amarelo ouro. Uma balada suave que ali era tocada pela velha vitrola, mal era escutada devido aos berros. Em um determinado canto, quatro mesas velhas de sinuca eram cercadas por jogadores e espectadores. Robert entrou e sentou no bar, composto por uma bancada de cerejeira e cinco bancos com estofamento vermelho. Logo, com um simples gesto com a mão, pediu um whisky. Começou a observar toda aquela alegria e movimento que ali existia; o ar abafado e quente, os corpos suados, os rostos avermelhos devido ao excesso de álcool. Os visitantes não se preocuparam tanto com a presença dele, e logo voltaram a gritar e dar gargalhadas.
Entretanto, uma mulher fazia o coração de Robert despertar; batia em um ritmo frenético e alucinante. Não imaginava como poderia existir uma pessoa com tamanha beleza. Um vestido longo e vermelho, com um decote na altura dos seios, cobria aquele corpo escultural. Os dois desconhecidos começaram uma troca de olhar despercebida; quando um mirava o outro, este logo tratava de desviar, tentando disfarçar. Então, após um certo tempo, a bela moça se aproxima do bar, pedindo um copo de martini como desculpa para se juntar ao rapaz que pouco aparecia ali. Aliás, era a segunda vez em um ano inteiro que Robert bebia algo na Whitedrink. Porém, da boca de nenhum dos dois saia nem se quer um ruído, um suspiro. Robert tomou a iniciativa e começou uma conversa com a moça. No início, longos silêncios eram criados entre um assunto e outro; mas depois tudo se desenrolava com uma facilidade tremenda.
- Mas da onde você vem? O que você faz para o próprio sustento? - perguntava Julie com uma curiosidade esmagadora.
Robert, virando de uma só vez os um quarto que restavam de whisky em seu copo, respondeu:
- Esse é o maior problema das pessoas: elas se importam com o lugar de origem, ao invés do lugar de destino.
- E para onde você vai?
- Para onde eu quiser.

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