Era mais um dia de céu acizentado, tomado por um frio confortável e de um silêncio profundo. Deitado na cobertura do sexto andar de um desses prédios erguidos no Plano Piloto na cidade de Brasília, eu me pegava, mais uma vez, pensando nela. O seu sorriso me vinha à mente em todo instante e, para de costume, eu sonhava acordado. Aquele brilho tão angelical vindo de seus olhos criava em mim uma vontade de desejo, de ter aquele par de pérolas negras sempre ao meu lado. Mas não bastava apenas elogiá-la, era preciso amá-la de uma forma estupenda, uma maneira que eu achava que meu amor não daria conta.
Eu pensei também no que a minha vida tinha sido e no que ela poderia vir a ser se com a linda menina dos meus sonhos eu ficasse. Tudo passava como um flash na minha cabeça, sendo interrompido, às vezes, pela visão do rosto dela. Nossa. Era mágico. Como posso eu, um simples jovem, descrever o que era aquilo? Meu coração bombeava sangue para os extremos do meu corpo com uma velocidade alta e descontrolada. O ar atmosférico entrava em meus pulmões de forma frenética, dando à mim um aspecto ofegante. minhas pernas mal conseguiam sustentar o peso do meu corpo sem que apresentassem um sinal de tremedeira. E tudo isso por causa de uma menina que talvez de saiba o quanto gosto dela.
Acordo. Abro meus olhos e percebo que havia mergulhado apenas em mais um sonho. Entretanto, apesar dessas ilusões serem maravilhosas, eu não me contentava. Eu queria algo mais; queria ela em meus braços, não apenas na minha mente. Mas, não! Eu não posso, digo, não permito. Ela está muito acima do meu alcance e, além o mais, ela merece alguém melhor. Canso-me. O meu coração quer o bem dela e não ela. Se comigo tiver que ser, para que assim ela consiga ser feliz, melhor para mim, senão, ótimo também.
Perco-me. A dúvida me domina e causa uma confusão enorme em meus pensamentos. As palavras são escritas e se apresentam sem sentido, sem ordem. Porém, voltando ao prédio brasiliense, o céu começa a se abrir aos poucos, como um sorriso discreto, liberando raios solares que a muito não tocavam a minha pele pálida. Começava a arder em mim um calor fumegante que atingia a minha pele, meu rosto, meu coração. meus olhos piscavam em intervalos miúdos, como um ato para se acostumar com a claridade, que agora não encontrava mais empecilho nas nuvens.
Levanto-me. Aproximo-me da beirada do pequeno edifício e olho para o solo distante. Buscava o entendimento daquela situação anormal e fora do meu cotidiano. Um pouco adiante da construção de concreto, em um pinheiro, vejo um um casal de canários. Mas como era doce aquele amor que demonstravam. Voavam, pousavam, piavam e logo retornavam ao voo gracioso. brincavam. Amavam. Admito que em certo instante pensei em me juntar a eles naquele liberdade total. Ser um indivíduo livre, sem compromissos, se dedicando apenas a amar a sua parceira.
Afasto-me. de forma desesperadora corro em busca do parapeito oposto. Seria medo? Talvez sim, talvez não. A verdade é que nunca saberei o que foi aquilo. A felicidade existente no casal voador parecia estar distante do meu alcance, como algo que eu nunca poderia chegar a possuir. aos poucos me acostumo e me acalmo. Sento ali mesmo, no lado contrário ao amor.Procuro algo no alto, alguma ave, mas minha busca termina sem resultados. Então, olho para baixo, e deparo-me com um ninho de canários. Lá havia três filhotes e uma mãe. Pelo que consegui observar, aquele momento se tratava do primeiro voo daqueles pequenos indivíduos. A coragem e a autoestima eram os sentimentos que não poderiam faltar naquele exato momento.
O primeiro da fila indiana improvisada aparentava um certo nervosismo. Contudo, a sua mãe, aquela que o aqueceu antes de chocar, que buscou alimento para que ficassem fortes, estava ao seu lado acalmando-o. Ergui minhas mãos ao rosto, tampando de forma a deixar uma fresta para os meus olhos. Saltou em direção ao nada o pequenino ser. Aqueles inúmeros dias de brincadeira trocados por longos e cansativos treinos enfim seria postos em prática. Ele conseguiu. Alcançou até mesmo a mais alta nuvem após anos de experiência.
Parei. De repente, tudo havia se tornado claro. Se eu quisesse voar, eu deveria ter coragem e me arriscar, senão teria que ficar subindo todas vez em prédios altos para me sentir livre. Corri para o lado do casal sem pensar no que estava deixando para trás. Saltei com meus braços para que, assim, toda a liberdade batesse em meu corpo e pensei: 'não tem mais volta'.
Escrito por Gustavo K.
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